Como o calor extremo afeta a eficácia dos EPIs e a saúde dos trabalhadores

O aumento das temperaturas médias e a ocorrência de ondas de calor no Brasil vêm trazendo novos desafios à segurança do trabalho. Setores como construção civil, manutenção industrial e logística já sentem os efeitos diretos: mais casos de fadiga térmica, desidratação e queda na concentração. Mas há um ponto menos discutido e igualmente grave, o impacto do calor extremo sobre o desempenho dos Equipamentos de Proteção Individual (EPIs).

Um EPI que protege bem em condições normais pode perder eficiência quando exposto a temperaturas elevadas. Materiais se degradam mais rápido, o conforto térmico diminui e o risco de não conformidade com as normas aumenta. Esse cenário exige atenção técnica e uma revisão das rotinas de uso, armazenamento e substituição.

Quando a temperatura compromete a segurança

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que, até 2030, o calor extremo reduzirá 2,2% das horas de trabalho no mundo, o equivalente a 80 milhões de empregos em tempo integral. O Brasil está entre os países mais vulneráveis: segundo o INMET, as temperaturas máximas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste cresceram em média 1,5 °C nas últimas três décadas.

O corpo humano reage ao calor com aumento da sudorese e da frequência cardíaca. Quando o ambiente supera os 30 °C e a umidade relativa é alta, o mecanismo natural de resfriamento falha, levando ao chamado estresse térmico. O trabalhador passa a ter fadiga precoce, tontura, irritação e perda de coordenação.

A NR-15 define limites de tolerância à exposição ao calor e obriga o empregador (ou o profissional autônomo, no caso de atuação individual) a adotar medidas de controle ambiental e pausas para recuperação térmica.

Como o calor afeta os materiais dos EPIs

As altas temperaturas não prejudicam apenas o corpo humano. Elas também comprometem o desempenho físico dos materiais que compõem os EPIs. Entender essa degradação é essencial para evitar uma falsa sensação de segurança.

  • Polímeros e plásticos

Capacetes, óculos e protetores faciais costumam ser fabricados em policarbonato ou polietileno de alta densidade. Esses materiais começam a perder resistência mecânica quando submetidos a temperaturas acima de 50 °C. Um capacete deixado dentro de um carro sob o sol pode deformar microscopicamente, reduzindo sua capacidade de absorver impacto.

  • Couro e tecidos tratados

Luvas, aventais e calçados fabricados com couro natural sofrem ressecamento e perda de flexibilidade em ambientes muito quentes. Já os tecidos retardantes de chama (como os utilizados em jaquetas de raspa) têm desempenho comprometido se não forem devidamente lavados e armazenados longe do calor direto.

  • Elastômeros e vedantes

Respiradores e máscaras semifaciais contêm borrachas e silicones que garantem vedação ao rosto. Quando expostos a altas temperaturas, esses materiais amolecem, deformam e perdem aderência. Isso compromete a proteção contra poeiras e vapores, tornando o uso ineficaz mesmo que o equipamento pareça intacto.

A relação entre conforto térmico e adesão ao uso

Como o calor extremo afeta a eficácia dos EPIs e a saúde dos trabalhadores

Fonte: Canva PRO

O calor também influencia um fator humano crucial: a adesão ao uso do EPI. Quanto mais desconfortável for o equipamento, maior a tendência de o trabalhador retirá-lo durante a jornada.

Um estudo conduzido pela Fundacentro em 2023 analisou o comportamento térmico de vestimentas de proteção em ambientes industriais e constatou que a temperatura interna do corpo de trabalhadores equipados com macacões de tecido grosso pode subir até 2,5 °C em 40 minutos de atividade contínua. Esse aumento compromete a concentração e eleva o risco de acidentes.

Nessas condições, a ergonomia térmica se torna tão importante quanto a resistência física do EPI. O uso de vestimentas mais leves, ventiladas e com materiais respiráveis ajuda a manter o equilíbrio térmico sem reduzir a proteção.

Produtos como o colete de alta visibilidade ventilado são boas opções para áreas externas, pois oferecem proteção visual e respirabilidade superior ao colete tradicional.

Efeitos fisiológicos do calor extremo sobre o trabalhador

O calor em excesso afeta não apenas o desempenho físico, mas também a segurança cognitiva. O cérebro reage à elevação da temperatura com lentidão e perda de foco.

O Ministério da Saúde classifica o estresse térmico como fator de risco para exaustão, cãibras, insolação e até síncope. Quando o trabalhador utiliza EPIs pesados em ambientes quentes, o risco é potencializado.

Entre os efeitos fisiológicos mais comuns estão:

  • Aumento da frequência cardíaca e da pressão arterial.
  • Redução da força muscular.
  • Diminuição da atenção e tempo de reação.
  • Desequilíbrio eletrolítico e desidratação.

Em um ambiente fabril ou de construção, essa combinação é crítica. Um segundo de distração pode resultar em queda, colisão ou falha na operação de uma máquina.

Adaptações necessárias para proteger sem superaquecer

A escolha do EPI certo em ambientes de calor intenso exige equilíbrio entre proteção e conforto térmico. Isso envolve materiais inovadores e práticas de gestão preventiva.

  • Ventilação ativa e tecidos tecnológicos: camisas com malha de poliéster ventilado ou tecidos de algodão com tratamento retardante de chama são alternativas seguras e respiráveis.
  • Hidratação constante: a NR-24 determina que o trabalhador deve ter acesso a água potável em condições adequadas durante toda a jornada.
  • Pausas regulares e sombra: conforme a NR-15, intervalos de descanso são obrigatórios quando o Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG) excede os limites de tolerância.

O que a legislação realmente exige

Nem sempre é fácil definir quando o calor se torna perigoso. Por isso, a NR-15 estabelece os limites de tolerância ao calor com base no Índice de Bulbo Úmido Termômetro de Globo (IBUTG), uma medida que considera temperatura, umidade, ventilação e radiação solar.

Quando o IBUTG ultrapassa 26,7 °C em atividades leves ou 25 °C em atividades moderadas, o trabalho contínuo sem pausas já é considerado de risco. Acima desses valores, é obrigatória a adoção de medidas compensatórias, como pausas frequentes, revezamento de tarefas e ampliação da ventilação.

Empresas que negligenciam essas exigências estão sujeitas às sanções previstas na Lei nº 6.514/1977, que determina penalidades para descumprimento das normas de segurança e saúde no trabalho. Mesmo o trabalhador autônomo deve respeitar esses parâmetros, pois são referenciais técnicos universais para preservar a integridade física durante a jornada.

O desafio da manutenção dos EPIs sob calor extremo

O calor acelera a degradação dos materiais e encurta a vida útil dos EPIs. Manter um controle de inspeção e troca é essencial para garantir que o equipamento continue eficiente.

Armazenamento correto

EPIs devem ser guardados em locais frescos, secos e ventilados. O Inmetro alerta que temperaturas acima de 40 °C em locais fechados podem alterar as propriedades dos polímeros, principalmente em capacetes e protetores faciais.

Evite deixar o equipamento no carro, especialmente em porta-malas ou painéis expostos ao sol. O ideal é transportá-lo em bolsas térmicas ou caixas plásticas opacas.

Limpeza e secagem

O suor e a poeira acumulados reduzem a respirabilidade dos tecidos e aceleram a deterioração do couro. A Fundacentro recomenda que luvas e calçados sejam limpos com pano úmido e secos à sombra, nunca em fontes de calor direto.

O mesmo vale para respiradores e máscaras semifaciais: devem ser lavados com sabão neutro e deixados secar em ambiente ventilado, evitando deformações que comprometem a vedação.

Troca preventiva

Mesmo que pareçam em boas condições, alguns EPIs precisam ser substituídos periodicamente. A maioria dos capacetes tem validade de cinco anos, enquanto luvas e calçados devem ser trocados ao menor sinal de rigidez ou rachaduras. A Portaria SIT 452/2014 reforça que o uso de EPI danificado ou vencido anula sua certificação.

Tecnologia e inovação para enfrentar o calor

A indústria de EPIs vem respondendo ao desafio do aquecimento global com novos materiais e designs voltados ao conforto térmico.

  • Têxteis inteligentes: tecidos com microfibras respiráveis e tratamento UV são usados em coletes e uniformes de alta performance, permitindo evaporação rápida do suor.
  • Capacetes ventilados: modelos com canais de ar integrados e suspensão ajustável ajudam na dissipação do calor. Um exemplo é o capacete de segurança ventilado classe B, que protege contra impacto e calor solar sem comprometer a estrutura.
  • Palas refletivas e capas de pescoço: acessórios simples que desviam parte da radiação solar e reduzem a temperatura corporal em até 2 °C durante atividades externas, segundo estudo do Instituto de Engenharia de Segurança Ocupacional da USP (2022).

Essas inovações não substituem a prevenção, mas aumentam a tolerância do corpo ao calor e reduzem a fadiga térmica, fator diretamente ligado ao número de acidentes por distração e perda de atenção.

O papel do gestor e do trabalhador na prevenção

 

O enfrentamento do calor extremo depende de uma cultura de segurança compartilhada. A NR-1 reforça a importância da capacitação contínua sobre os riscos ocupacionais, inclusive os ambientais.

O trabalhador deve ser treinado para identificar sinais precoces de exaustão térmica (como tontura, pele seca, fraqueza e dor de cabeça) e comunicar imediatamente ao responsável técnico ou cliente contratante. Já o gestor precisa ajustar escalas, garantir hidratação e monitorar o clima em tempo real por meio de estações portáteis.

O uso de aplicativos e sensores ambientais vem se tornando prática comum em empresas do setor logístico e de construção. Esses dispositivos permitem calcular o IBUTG no local e emitir alertas automáticos quando o limite seguro é ultrapassado, integrando dados de temperatura e umidade com a rotina de pausas e uso de EPIs.

Responsabilidade compartilhada e prevenção sustentável

O calor não é apenas um desafio físico, mas também um alerta sobre sustentabilidade no ambiente de trabalho. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o aumento médio da temperatura global deve continuar até o final do século, elevando a frequência de ondas de calor extremo no Brasil.

Isso significa que a segurança térmica precisa ser encarada como parte da estratégia de sustentabilidade das empresas e da rotina dos profissionais autônomos. Reduzir a exposição, investir em uniformes térmicos e revisar as políticas de uso de EPIs são ações que protegem vidas e aumentam a produtividade.

O Ministério do Trabalho e Emprego já estuda atualizações na NR-15 para incluir parâmetros de calor extremo em ambientes abertos, o que reforça a urgência do tema.

Considerações finais

O calor extremo altera o comportamento humano, degrada materiais e desafia as normas tradicionais de segurança. A boa notícia é que o conhecimento técnico e as tecnologias disponíveis permitem se adaptar com responsabilidade.

Manter EPIs limpos, ventilados e certificados é o primeiro passo. Investir em conforto térmico é o segundo. Mas o essencial é entender que o uso do EPI é um ato de autocuidado e profissionalismo.

Em tempos de clima imprevisível, quem antecipa o risco trabalha melhor, com menos fadiga e mais segurança.

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