Manutenção preventiva dos EPIs em ambientes quentes: cuidados essenciais no verão

Com a chegada do verão e o aumento das temperaturas, o cuidado com os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) precisa ir além do uso correto. A manutenção preventiva se torna fundamental para garantir que o material continue protegendo o trabalhador mesmo sob condições extremas.

Capacetes, luvas, calçados e respiradores sofrem desgaste acelerado quando expostos ao calor intenso. A radiação solar, a umidade e o armazenamento inadequado comprometem a resistência dos materiais e reduzem sua eficácia. Um EPI aparentemente novo pode, na prática, já não oferecer a proteção necessária.

Esse risco é especialmente crítico em atividades realizadas a céu aberto, como construção civil, manutenção elétrica e transporte de cargas. O calor não afeta apenas o corpo humano, mas também altera as propriedades físicas dos EPIs e compreender essa relação é o primeiro passo para prevenir acidentes.

O impacto do calor sobre os materiais de proteção

Manutenção preventiva dos EPIs em ambientes quentes: cuidados essenciais no verão

Fonte: Canva PRO

O desempenho de um EPI depende diretamente da integridade do material. Sob altas temperaturas, alguns componentes sofrem reações químicas que diminuem a capacidade de absorção de impacto, isolamento ou vedação.

A Fundacentro, em estudo de 2023 sobre degradação térmica de polímeros industriais, identificou que o policarbonato e o polietileno de alta densidade (usados em capacetes e viseiras) começam a perder resistência estrutural a partir de 50 °C. Isso significa que um capacete deixado por horas dentro de um veículo fechado pode se deformar microscopicamente e comprometer a segurança.

Outro ponto crítico é o couro, material comum em luvas de raspa e calçados de segurança. O calor excessivo causa ressecamento, reduzindo a flexibilidade e a resistência mecânica. Esse efeito é potencializado pela exposição ao suor, já que a acidez natural da pele acelera a degradação das fibras.

Respiradores e máscaras semifaciais também exigem atenção: o silicone e os elastômeros usados na vedação facial podem deformar com o calor, criando microfrestas que anulam a proteção contra poeiras ou vapores químicos.

A importância da manutenção preventiva

A NR-6 é clara ao estabelecer que o empregador (ou o próprio trabalhador, quando autônomo) deve garantir que os EPIs estejam em perfeito estado de conservação e funcionamento. Essa obrigação inclui higienização, armazenamento, substituição periódica e descarte correto.

A manutenção preventiva é o conjunto de ações que visa preservar a eficácia do EPI antes que o desgaste se torne visível. É diferente da manutenção corretiva, que ocorre após falhas já perceptíveis.

No verão, essa prática ganha nova importância. O calor, aliado à umidade e ao suor, cria um ambiente propício para a proliferação de fungos e bactérias, especialmente em calçados e luvas. Por isso, higienizar e secar adequadamente os equipamentos passa a ser parte da rotina de segurança.

Além da questão sanitária, há o fator de conforto térmico. EPIs limpos e ventilados reduzem a temperatura corporal e aumentam a adesão ao uso, evitando que o trabalhador retire a proteção durante o expediente.

Cuidados essenciais durante o uso diário

O calor extremo modifica a forma como os EPIs devem ser usados. Ajustes simples podem prolongar a durabilidade e evitar falhas.

  • Alternância de equipamentos: mantenha pelo menos dois conjuntos de luvas e calçados para revezamento. Isso permite que um par seque completamente antes do próximo uso, evitando mofo e endurecimento.
  • Higienização frequente: lave calçados e luvas de couro apenas com pano úmido, sem imersão em água. Para respiradores, siga as orientações da ficha técnica ou da Portaria MTP nº 4.389/2022, garantindo a secagem completa antes do próximo uso.
  • Evite exposição direta ao sol: EPIs deixados em áreas externas perdem resistência rapidamente. Guarde-os sempre em local ventilado, longe de fontes de calor ou umidade.
  • Atenção aos ajustes de tamanho: o suor e o calor dilatam as fitas elásticas e suspensões de capacetes. Revise o encaixe diariamente para manter a proteção firme e confortável.

Esses pequenos cuidados fazem a diferença entre um equipamento eficiente e um risco disfarçado.

Checklists de inspeção em dias quentes

A rotina de verificação diária dos EPIs deve ser reforçada durante o verão. Além dos itens habituais  (rachaduras, desgastes e costuras), inclua observações específicas sobre calor e umidade.

  • Capacetes: procure por deformações no casco, descolamento da aba e ressecamento da suspensão interna. Se houver alteração na cor original (amarelamento ou manchas), substitua imediatamente.
  • Luvas: observe rigidez, costuras abertas e perda de tato. O couro ressecado é sinal de que o material perdeu sua elasticidade.
  • Calçados: verifique o estado do solado, principalmente em modelos antiderrapantes. O calor pode reduzir a aderência e causar descolamento parcial.
  • Respiradores: analise a elasticidade das tiras e a integridade da vedação. Após um dia inteiro de uso sob sol, lave a peça e deixe secar à sombra, longe de superfícies metálicas.

Manter um registro simples dessas verificações ajuda a identificar padrões de desgaste e prever substituições antes que a falha ocorra.

Onde e como guardar os EPIs no verão

O armazenamento é um dos pontos mais negligenciados da manutenção de EPIs e justamente o que mais sofre com o calor. O ambiente quente e úmido pode reduzir em até 40% a durabilidade dos equipamentos, segundo levantamento da Fundacentro.

O ideal é reservar um local específico, com temperatura controlada entre 18 °C e 30 °C, protegido da luz solar direta e com boa ventilação. EPIs como capacetes e óculos devem ser armazenados em prateleiras ou ganchos, sem contato com produtos químicos ou superfícies metálicas aquecidas.

Calçados e luvas devem ser guardados em armários individuais ventilados. O uso de saquinhos de sílica gel ajuda a controlar a umidade e evita mofo. Respiradores, por sua vez, precisam de recipientes fechados, mas nunca herméticos, para permitir circulação de ar sem acúmulo de odores.

Outra boa prática é rotular os equipamentos com a data de início de uso. Isso permite acompanhar o ciclo de vida útil de cada peça e substituí-la antes que perca desempenho.

Prazo de validade e substituição programada

Mesmo com boa conservação, nenhum EPI é eterno. Cada material tem um ciclo de vida próprio, e o calor acelera esse processo. A NR-6 exige que os equipamentos estejam sempre em condições de uso e dentro do prazo de validade indicado pelo fabricante.

  • Capacetes de segurança: 5 anos a partir da data de fabricação, podendo ser reduzido em ambientes de alta temperatura ou radiação solar constante.
  • Calçados e botas de segurança: de 6 a 12 meses, dependendo da intensidade do uso e da exposição ao calor e umidade.
  • Luvas: variam entre 3 e 6 meses, mas devem ser substituídas imediatamente se apresentarem rigidez ou rachaduras.
  • Respiradores e máscaras PFF2: uso limitado a 40 horas, podendo diminuir em dias de calor intenso, pois o suor e a umidade degradam o filtro.

A Portaria SIT nº 452/2014 reforça que EPIs vencidos ou danificados perdem a validade do Certificado de Aprovação (CA), mesmo que visualmente pareçam em bom estado.

Manter um controle de substituição preventiva é parte essencial da gestão de segurança especialmente para trabalhadores autônomos, que não contam com apoio técnico externo.

Inovações e materiais mais resistentes ao calor

Com a intensificação das ondas de calor no Brasil, fabricantes vêm investindo em novas tecnologias para prolongar a vida útil dos EPIs e aumentar o conforto térmico dos usuários.

  • Materiais respiráveis e antiodor: calçados com microperfuros e palmilhas antibacterianas reduzem o acúmulo de umidade e prolongam o tempo de uso sem desconforto. Um exemplo é a botina de segurança em couro microperfurado com biqueira de aço, que combina proteção e ventilação.
  • Capacetes ventilados com canal de ar: os novos modelos possuem aberturas laterais que permitem circulação de ar sem comprometer a resistência mecânica, conforme a ABNT NBR 8221.
  • Luvas com forro absorvente: tecnologias têxteis desenvolvidas a partir de fibras de bambu e algodão tratadas melhoram a dissipação térmica e reduzem a umidade nas mãos. Um modelo indicado é a luva de segurança com palma reforçada em vaqueta, ideal para atividades em áreas externas.

Essas inovações não apenas aumentam o conforto do trabalhador, mas também reduzem a frequência de trocas, um benefício econômico e ambiental relevante.

A importância da gestão compartilhada e da conscientização

A manutenção preventiva dos EPIs não deve ser encarada como responsabilidade exclusiva de um técnico ou de uma norma. Ela é um processo colaborativo que envolve o trabalhador, o gestor e o fabricante.

A NR-1 estabelece que a capacitação é obrigatória e deve abordar a conservação e o uso correto dos EPIs. Isso inclui ensinar como identificar sinais de degradação térmica e a importância de reportar problemas imediatamente.

O trabalhador, por sua vez, deve adotar uma postura preventiva: inspecionar os equipamentos antes de cada uso, limpá-los ao final do expediente e armazená-los adequadamente. Já o gestor deve garantir treinamento contínuo, registro de manutenção e substituição periódica.

O fabricante, por fim, tem o dever de fornecer instruções claras sobre uso, limpeza e descarte, conforme determina a Portaria MTP nº 4.389/2022.

Essa integração entre todos os elos da cadeia é o que garante a eficácia da proteção, especialmente sob condições ambientais adversas.

Sustentabilidade e descarte responsável

Em tempos de mudanças climáticas, pensar na manutenção dos EPIs também é pensar em sustentabilidade. O descarte inadequado de luvas, máscaras e calçados contribui para a poluição e aumenta o impacto ambiental.

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) prevê a logística reversa para produtos de uso profissional. Isso significa que os fabricantes e distribuidores devem criar mecanismos para recolher e destinar corretamente os EPIs usados.

Ao descartar luvas e calçados, priorize os pontos de coleta informados pelo fornecedor ou pelos centros de distribuição. Nunca descarte materiais contaminados com óleo, solventes ou graxas junto ao lixo comum.

Além disso, priorizar produtos duráveis e certificados reduz o volume de descarte e o consumo de matéria-prima e gera um ciclo de segurança mais sustentável e eficiente.

Considerações finais

O calor extremo do verão não é apenas um desafio de conforto, mas um fator que altera a durabilidade e a eficácia dos Equipamentos de Proteção Individual. A manutenção preventiva surge, portanto, como a principal estratégia para preservar a segurança e evitar que o calor transforme o EPI em um ponto fraco.

Cuidar bem dos equipamentos significa proteger não só o corpo, mas também o investimento e a reputação profissional. EPIs limpos, armazenados corretamente e substituídos no tempo certo garantem desempenho e confiabilidade, mesmo sob temperaturas elevadas.

Na Bunzl EPI, acreditamos que a manutenção preventiva é parte essencial da cultura de segurança. Nosso compromisso é apoiar empresas e profissionais na escolha e conservação de equipamentos que mantenham a proteção mesmo em condições extremas.